Sequências e Limites

Uma sequência de números é realmente uma função que associa a cada inteiro positivo um número. Denotamo-la usualmente por { a n } , onde a n = f ( n ) para cada inteiro n > 0 . Exemplos são:
a) 1 , 1 , 1 , 1 , 1 , 1 , ;
a n = 1 se n é ímpar, 1 se n é par.
b) 1 , 1 2 , 1 3 , 1 4 , ;
a n = 1 n
c) 1 , 1 + 1 , 1 + 1 + 1 2 ! , ;
a n = 1 + 1 1 ! + 1 2 ! + + 1 ( n 1 ) !

Diz-se que a sequência { a n } tem o limite a se, para cada número positivo ϵ dado (geralmente considerado pequeno), podemos encontrar um inteiro N tal que, sempre que n > N , temos a ϵ < a n < a + ϵ , ou, o que dá no mesmo, | a a n | < ϵ . Isto é, eu só posso afirmar que o limite é a se todo oponente que escolher me desafiar a esse respeito puder ser enfrentado; devo estar preparado para dar um procedimento para encontrar um N com a propriedade desejada com base em qualquer ϵ com o qual ele deseje me confrontar. Se { a n } tem o limite a , escrevemos ou

lim n a n = a , ou simplesmente lim a n = a

O primeiro é lido: "O limite quando n tende ao infinito de a n é a ". Note que não definimos em lugar nenhum nenhum objeto chamado "infinito", mas sim escolhemos toda essa linguagem para nos referir ao comportamento que recebeu uma definição precisa acima.

A sequência a) não tem limite (tente enfrentar o desafio de ϵ = 1 2 ). A sequência b) tem o limite 0 , e a sequência c) tem o limite e , como vimos na Seção 17. Suponha, entretanto, que nos seja dada uma sequência { a n } e não seja evidente qual é o seu limite. Podemos dizer se ela tem um limite sem primeiro adivinhar o limite? A resposta a isso é sim, por meio de vários recursos possíveis. O mais poderoso deles, o critério de convergência de Cauchy, será apresentado com sua demonstração como um apêndice desta seção. Um critério um pouco mais simples pode ser aplicado se a sequência é crescente: a 1 a 2 a 3

Teorema 1

Seja { a n } crescente, e seja { a n } limitada superiormente. Então lim a n = a para algum número a .

Seja a o supremo de { a n } . Seja ϵ > 0 . Devemos mostrar que existe um N tal que, sempre que n > N , a ϵ < a n < a + ϵ . Mas a n < a + ϵ para **todo** n , pois a n a para todo n ( a é uma cota superior). Agora, a ϵ **não é** uma cota superior, de modo que existe um N tal que a N > a ϵ . Se n > N , então a n a N > a ϵ . Assim, para n > N , temos a ϵ < a n < a + ϵ , o que era o que se queria provar. (Note que N dependerá em geral de ϵ .)

Se não soubéssemos que o limite da sequência c) é e , poderíamos mostrar por este teorema que ela tem um limite. Pois a sequência é evidentemente crescente, e

\begin{aligned} 1 + 1 + \frac{1}{2!} + \frac{1}{3!} + \dots + \frac{1}{(n-1)!} &\le 1 + 1 + \frac{1}{2} + \frac{1}{2^2} + \dots + \frac{1}{2^{n-2}} \\ &= 1 + \frac{1 - (\frac{1}{2})^{n-1}}{1 - \frac{1}{2}} < 3 \quad \text{para todo } n \cdot \end{aligned}

Portanto temos uma sequência crescente limitada. O teorema também pode ser aplicado, usando negativos, para mostrar que se uma sequência decrescente tem uma cota inferior, ela tem um limite. (Note também que dois números a e b não podem ser ambos limites de { a n } ; pois então não poderíamos enfrentar o desafio de ϵ = 1 2 | b a | para nenhum dos dois pontos.)

Como exemplo de uma sequência cujo limite não podemos adivinhar, seja a n = 1 + 1 2 + + 1 n log n . Então

a n + 1 a n = 1 n + 1 log ( n + 1 ) + log n = 1 n + 1 log ( 1 + 1 n )

Mas, se lembrarmos da Seção 11 a desigualdade

log ( 1 + 1 n ) 1 n + 1 , vemos que a n a n + 1 ,

ou seja, a sequência é decrescente. Agora vamos mostrar que ela tem 0 como cota inferior. Para fazer isso, lembre o outro lado da mesma desigualdade sobre log x :

1 n log ( 1 + 1 n ) = log ( n + 1 ) log n

Assim

\begin{aligned} a_n &\ge (\log 2 - \log 1) + (\log 3 - \log 2) + \dots + (\log(n+1) - \log n) - \log n \\ &= (\log 2 - \log 2) + (\log 3 - \log 3) + \dots + (\log n - \log n) + \log(n+1) - \log n \\ &= \log(n+1) - \log n \ge 0 \quad \text{para todo } n \cdot \end{aligned}

Portanto

lim n ( 1 + 1 2 + + 1 n log n ) = C

existe, e é de fato não negativo. Suas primeiras casas decimais são .5772 . É chamada de constante de Euler, e nem sequer se sabe se ela é racional.

A seguir provamos algumas propriedades dos limites de sequências, incluindo a linearidade dos limites. Algumas outras são deixadas como exercícios. Em geral, seja { a n } uma sequência com limite a , { b n } uma sequência com limite b , e c uma constante.

Teorema 2
lim ( a n + b n ) = a + b

Seja ϵ > 0 dado. Então podemos encontrar N 1 tal que para todo n > N 1 , ϵ < a n a < ϵ , e N 2 tal que para todo n > N 2 , ϵ < b n b < ϵ . Seja N o **maior entre N 1 e N 2 **, escrito N = Max ( N 1 , N 2 ) . Então, para todo n > N , ( a n + b n ) ( a + b ) tem a propriedade de que

2 ϵ < ( a n + b n ) ( a + b ) < 2 ϵ

O fator 2 não faz diferença, pois poderíamos ter começado com ϵ 2 em vez de ϵ e chegado a ϵ < ( a n + b n ) ( a + b ) < ϵ para todo n > N' para um certo N'. Portanto o teorema está provado.

Teorema 3
lim ( c a n ) = c a

Se c = 0 , então todos os c a n = c a = 0 , e para qualquer ϵ > 0 dado, podemos tomar N = 1 . Então ϵ < c a n c a = 0 < ϵ , para todo n > N . Agora, seja c 0 , e seja ϵ > 0 dado. Seja N 1 tal que ϵ < a n a < ϵ para todo n > N 1 , ou, em outras palavras, | a n a | < ϵ para n > N 1 . Então

| c a n c a | = | c | | a n a | < | c | ϵ para  n > N 1

Precisamos apenas começar com ϵ | c | em vez de ϵ para obter um resultado da forma

| c a n c a | < ϵ para  n > N
Teorema 4
lim ( a n b n ) = a b

PROVA PARCIAL.

\begin{aligned} |a_n b_n - ab| &= |a_n b_n - a_n b + a_n b - ab| \\ &\le |a_n b_n - a_n b| + |a_n b - ab| = |a_n| |b_n - b| + |a_n - a| |b| \cdot \end{aligned}

Agora considere { a n } , com ϵ = 1 . Existe um N 1 tal que para n > N 1 , | a n a | < 1 . Agora afirmamos que | a n | | a | | a n a | . Pois

| a n | = | ( a n a ) + a | | a n a | + | a | ,

ou

| a n | | a | | a n a |

Assim temos | a n | | a | | a n a | < 1 , ou | a n | < 1 + | a | para todo n > N 1 . Portanto, se n > N 1 ,

| a n b n a b | ( | a | + 1 ) | b n b | + | a n a | | b |

O restante da demonstração é deixado como exercício.

Exercício 1.

Suponha lim a n = a , a 0 .
Mostre que existe um número positivo r e um inteiro N 1 tais que, para todo n > N 1 , | a n | > r .

Agora mostre que lim ( 1 a n ) = 1 a , no sentido de que, para qualquer ϵ > 0 dado, existe um N tal que para todo n > N , a n 0 e | 1 a n 1 a | < ϵ .

A seguir, seja f ( x ) uma função definida num intervalo contendo um ponto x 0 , com a possível exceção de que f ( x 0 ) pode não estar definida. Dizemos que a é o limite quando x se aproxima de x 0 de f ( x ) , escrito

lim x x 0 f ( x ) = a ,

se, para cada ϵ > 0 dado, podemos encontrar um δ > 0 tal que, para todo x no intervalo 0 < | x x 0 | < δ , temos | f ( x ) a | < ϵ .

Exercício 2.

Sejam

lim x x 0 f ( x ) = a , lim x x 0 g ( x ) = b ,

c uma constante. Prove:

  1. lim x x 0 ( f ( x ) + g ( x ) ) = a + b .
  2. lim x x 0 ( c f ( x ) ) = c a .
  3. lim x x 0 ( f ( x ) g ( x ) ) = a b .
  4. Se a 0 , lim x x 0 ( 1 f ( x ) ) = 1 a
  5. lim x x 0 f ( x ) = a significa o mesmo que lim h 0 f ( x 0 + h ) = a .

Apêndice: Critério de Cauchy

Como variação, provamos este teorema para o limite de uma função, e deixamos sua demonstração para sequências como exercício.

Teorema 5

Seja f ( x ) definida num intervalo contendo x 0 , mas não necessariamente em x 0 . Então

lim x x 0 f ( x )

existe se e somente se f ( x ) satisfaz a seguinte condição: Para todo ϵ > 0 existe um δ > 0 tal que, se x 1 e x 2 são quaisquer números com 0 < | x 1 x 0 | < δ , 0 < | x 2 x 0 | < δ , então | f ( x 1 ) f ( x 2 ) | < ϵ

Primeiro, suponha que o limite existe, digamos

lim x x 0 f ( x ) = a

Seja ϵ > 0 dado. Então existe um δ > 0 tal que, se 0 < | x x 0 | < δ , temos | f ( x ) a | < ϵ 2 Sejam 0 < | x 1 x 0 | < δ , 0 < | x 2 x 0 | < δ . Então

\begin{aligned} |f(x_1) - f(x_2)| &= |f(x_1) - a + a - f(x_2)| \\ &\le |f(x_1) - a| + |f(x_2) - a| < \frac{\epsilon}{2} + \frac{\epsilon}{2} = \epsilon \cdot \end{aligned}

Assim o teorema está provado numa direção: se o limite existe, a condição é satisfeita.

Agora suponha que a condição é satisfeita. Primeiro tome ϵ = 1 ; depois seja 0 < | x 1 x 0 | < δ 0 , onde δ 0 satisfaz a condição para ϵ = 1 . Agora, se x é qualquer número tal que 0 < | x x 0 | < δ 0 , temos | f ( x ) f ( x 1 ) | < 1 , ou | f ( x ) | < | f ( x 1 ) | + 1 , isto é, f ( x ) é limitada superiormente e inferiormente para 0 < | x x 0 | < δ 0 .

Em seguida, seja δ 1 = Min ( 1 , δ 0 ) , δ 2 = Min ( 1 2 , δ 0 ) , , δ n = Min ( 1 n , δ 0 ) . (A partir de um certo n , todos os δ n = 1 n , pois eventualmente 1 n < δ 0 ) Em cada um dos intervalos I n : 0 < | x x 0 | < δ n , f ( x ) é limitada superiormente e inferiormente. Seja a n o supremo dos valores de f ( x ) em I n . A sequência { a n } é decrescente, pois um supremo em I n é uma cota superior em I n + 1 . Além disso, todos os a n L , onde L é qualquer cota inferior para f ( x ) em I 1 . Portanto lim a n existe. Chamemo-lo a . Agora provaremos que

a = lim x x 0 f ( x )

Seja ϵ > 0 dado. Então existe um N tal que, para todo n > N , | a a n | < ϵ 3 Como a n é o supremo de f ( x ) em I n , existe um x n em I n , tal que | a n f ( x n ) | < ϵ 3 , e isso para cada n . Existe também um \delta' tal que, sempre que 0 < |x - x_0| < \delta', 0 < |x' - x_0| < \delta', então |f(x) - f(x')| < \frac{\epsilon}{3} \cdot Agora tome n > N tal que \delta_n < \delta' \cdot Afirmamos que δ n é um δ adequado para a definição de limite. Isto é, seja 0 < | x x 0 | < δ n Então 0 < |x - x_0| < \delta', e também 0 < |x_n - x_0| < \delta_n < \delta' \cdot Portanto

| f ( x ) f ( x n ) | < ϵ 3

Agora sabemos que | f ( x n ) a n | < ϵ 3 e, como n > N ,

| a n a | < ϵ 3

Portanto

\begin{aligned} |f(x) - a| &= |f(x) - f(x_n) + f(x_n) - a_n + a_n - a| \\ &\le |f(x) - f(x_n)| + |f(x_n) - a_n| + |a_n - a| \\ &< \frac{\epsilon}{3} + \frac{\epsilon}{3} + \frac{\epsilon}{3} = \epsilon \cdot \end{aligned}

Vemos que, sempre que 0 < | x x 0 | < δ n , temos | f ( x ) a | < ϵ . Portanto

lim x x 0 f ( x ) = a ,

e a demonstração está completa.

Exercício 3.

Prove o critério de Cauchy para sequências; lim a n existe se e somente se a seguinte condição vale: Para qualquer ϵ > 0 existe um N tal que, sempre que m > N e n > N , então | a m a n | < ϵ .