Tensão Plana

Tensão plana é uma simplificação na elasticidade usada para modelar corpos onde

  1. uma dimensão (espessura) é muito menor que as outras duas, como placas finas ou cascas
  2. forças atuam apenas nesse plano.

Seja o plano da estrutura o plano x y , e a direção da espessura o eixo z .

1. Hipóteses Fundamentais

A formulação de tensão plana consiste nas seguintes hipóteses centrais referentes ao estado de tensões:

  1. As forças de tração nas superfícies (em z = ± h / 2 ) são nulas.
  2. Como a placa é fina, supõe-se que não há espaço para desenvolver tensões internas significativas na direção z , nem tensões de cisalhamento associadas à face z .

Matematicamente, isso impõe: σ z z = 0 , σ x z = 0 , σ y z = 0 Consequentemente, as componentes de tensão não nulas ( σ x x , σ y y , σ x y ) são consideradas funções apenas de x e y , e são uniformes ao longo da espessura.

2. A Inconsistência Matemática

Embora a simplificação de tensão plana seja altamente útil e precisa para componentes de engenharia finos, ela contém uma inconsistência teórica quando analisada rigorosamente através da teoria tridimensional completa da elasticidade. Essa inconsistência surge da relação entre tensão, deformação e compatibilidade de deslocamentos.

O Efeito de Poisson e a Deformação Fora do Plano

Embora a tensão fora do plano σ z z seja considerada nula, a deformação fora do plano ϵ z z não é nula devido ao efeito de Poisson. Usando a Lei de Hooke generalizada:

ϵ z z = 1 E [ σ z z ν ( σ x x + σ y y ) ]

Como σ z z = 0 , isso se reduz a: ϵ z z = ν E ( σ x x + σ y y )

Como σ x x e σ y y variam com x e y , ϵ z z também varia ao longo do plano da placa. Isso significa que a placa altera sua espessura de forma não uniforme.

O Conflito com a Compatibilidade

A partir das relações deformação-deslocamento, ϵ z z = w z (onde w é o deslocamento na direção z ). Integrando ϵ z z em relação a z (assumindo simetria em relação ao plano médio z = 0 ) obtém-se: w = ν E ( σ x x + σ y y ) z Como ( σ x x + σ y y ) é uma função de x e y , então w é uma função de x , y , e z . Consequentemente, as derivadas w x e w y são geralmente não nulas.

Agora observe as deformações de cisalhamento transversais, que devem ser nulas com base na hipótese de tensão ( σ x z = σ y z = 0 ): γ x z = u z + w x = 0 γ y z = v z + w y = 0

Se w x e w y são não nulas, então para que essas deformações de cisalhamento permaneçam nulas, os deslocamentos no plano u e v devem depender de z .

Conclusão sobre a Inconsistência

A hipótese de que as tensões no plano são independentes de z contradiz o requisito de compatibilidade de deformações. Um estado de tensão com σ z z = σ x z = σ y z = 0 em toda parte geralmente não é possível a menos que ( σ x x + σ y y ) seja constante ou linear em x e y . Portanto, a tensão plana é considerada uma solução aproximada. Na realidade, as tensões assumidas são tratadas como valores médios ao longo da espessura da placa.

3. Equações e Incógnitas

Apesar da inconsistência teórica com relação à direção z , o problema de tensão plana 2D é matematicamente determinado. Focamos apenas nas variáveis do plano x y .

As Incógnitas (Total: 8)

Para resolver completamente o problema de campo 2D, precisamos determinar 8 variáveis de campo (todas funções de x e y ):

  • Deslocamentos (2): u ( x , y ) , v ( x , y )
  • Deformações (3): ϵ x x , ϵ y y , γ x y
  • Tensões (3): σ x x , σ y y , σ x y

As Equações Governantes (Total: 8)

Para resolver essas 8 incógnitas, utilizamos 8 equações fundamentais da elasticidade (desprezando forças de corpo por simplicidade):

  1. Equações de Equilíbrio (2): Derivadas da segunda lei de Newton (estática). σ x x x + σ x y y = 0 σ x y x + σ y y y = 0
  2. Equações Cinemáticas (Deformação-Deslocamento) (3): Baseadas na geometria da deformação. ϵ x x = u x ϵ y y = v y γ x y = u y + v x
  3. Equações Constitutivas (Lei de Hooke para Tensão Plana) (3): Relacionando tensão e deformação. Observe a modificação de E devido à condição σ z z = 0 . ϵ x x = 1 E ( σ x x ν σ y y ) ϵ y y = 1 E ( σ y y ν σ x x ) γ x y = 1 G σ x y ( onde  G = E 2 ( 1 + ν ) )

Como há 8 incógnitas e 8 equações independentes, o sistema é fechado e solucionável, desde que sejam aplicadas condições de contorno apropriadas.