Polarização

Polarização

Antes de continuarmos com o programa de estudar as analogias entre números complexos e transformações lineares, tomamos tempo para recolher alguns resultados auxiliares importantes sobre espaços com produto interno.

Teorema 1. Uma condição necessária e suficiente para que uma transformação linear A em um espaço com produto interno seja 0 é que ( A x , y ) = 0 para todos x e y .

Demonstração. A necessidade da condição é óbvia; a suficiência segue de colocar y igual a A x . ◻

Teorema 2. Uma condição necessária e suficiente para que uma transformação linear autoadjunta A em um espaço com produto interno A seja 0 é que ( A x , x ) = 0 para todos x .

Demonstração. A necessidade é óbvia. A demonstração da suficiência começa verificando a identidade

(Expanda o primeiro termo no lado direito.) Como A é autoadjunta, o lado esquerdo dessa equação é igual a 2 Re ( A x , y ) . A condição pressuposta implica que o lado direito se anula, e portanto que Re ( A x , y ) = 0 . Neste ponto é necessário dividir a demonstração em dois casos. Se o espaço com produto interno é real (isto é, A é simétrica), então ( A x , y ) é real, e portanto ( A x , y ) = 0 . Se o espaço com produto interno é complexo (isto é, A é hermitiana), então encontramos um número complexo θ tal que | θ | = 1 e θ ( A x , y ) = | ( A x , y ) | . (Aqui x e y são temporariamente fixos.) O resultado que já temos, aplicado a θ x em lugar de x , fornece Em qualquer caso, portanto, ( A x , y ) = 0 para todos x e y , e o resultado desejado segue do Teorema 1. ◻

É útil indagar o quanto é importante a autoadjuntidade de A no Teorema 2; a resposta é que no caso complexo ela não é importante de jeito nenhum.

Teorema 3. Uma condição necessária e suficiente para que uma transformação linear A em um espaço unitário seja 0 é que ( A x , x ) = 0 para todos x .

Demonstração. Como antes, a necessidade é óbvia. Para a demonstração da suficiência usamos a chamada identidade de polarização :

(Assim como para (1), a demonstração consiste em expandir o primeiro termo no lado direito.) Se ( A x , x ) é identicamente zero, então obtemos, primeiro escolhendo α = β = 1 , e então α = i ( = 1 ), β = 1 Dividindo a segunda dessas duas equações por i e então formando sua média aritmética, vemos que ( A x , y ) = 0 para todos x e y , de modo que, pelo Teorema 1, A = 0 . ◻

Esse processo de polarização é frequentemente usado para obter informações sobre a "forma bilinear" ( A x , y ) quando apenas o conhecimento da "forma quadrática" ( A x , x ) é pressuposto.

É importante observar que, apesar de sua aparente inocência, o Teorema 3 faz uso muito essencial do sistema de números complexos; ele e muitas de suas consequências não são verdadeiros para espaços com produto interno reais. A demonstração, é claro, quebra em nossa escolha de α = 1 . Para um exemplo, considere uma rotação de 90 do plano; ela claramente tem a propriedade de enviar cada vetor x para um vetor ortogonal a x .

Vimos que transformações hermitianas desempenham o mesmo papel que números reais; o teorema seguinte indica que elas estão vinculadas ao conceito de realidade de formas mais profundas do que através da analogia formal que sugeriu sua definição.

Teorema 4. Uma condição necessária e suficiente para que uma transformação linear A em um espaço unitário seja hermitiana é que ( A x , x ) seja real para todos x .

Demonstração. Se A = A , então ( A x , x ) = ( x , A x ) = ( x , A x ) = ( A x , x ) , de modo que ( A x , x ) é igual ao seu conjugado e é portanto real. Se, por outro lado, ( A x , x ) é sempre real, então ( A x , x ) = ( A x , x ) = ( x , A x ) = ( A x , x ) , de modo que ( [ A A ] x , x ) = 0 para todos x , e, pelo Teorema 3, A = A . ◻

O Teorema 4 é falso para espaços com produto interno reais. Isso é esperado, pois, em primeiro lugar, sua demonstração depende de um teorema que é verdadeiro apenas para espaços unitários, e, em segundo lugar, em um espaço real a realidade de ( A x , x ) é automática, enquanto a identidade ( A x , y ) = ( x , A y ) não é necessariamente satisfeita.